25 Março 2008

Restos de Inverno

Sento-me nesta cadeira por muitas horas durante o dia. Tenho as pernas fracas, verdade seja dita. Há alguns meses, para não dizer um ano, que encosto esta cadeira à vida da minha rua, às histórias sumarentas da vizinhança, à chuva, ao sol que a manhã me traz. É dia de Março, assim seja. Esta criançada nem pára para sentir o frio. Parecem-me sempre os mesmos, mas não me perguntem pelos nomes próprios. Às vezes tiram-me do sério, grito-lhes com os pulmões em desespero, com a garganta a arranhar. Para ser exacto dói-me o coração, ou a parte do peito que o protege, quando a bola perdida da habilidade dos pés acerta nos recortes dos meus canteiros. Há flores para nascer! Hei-de ver, quero ver, a vida destas flores transformada em cor, em cores, promessa que se paga ao sol. Mas falava eu de tempo. Tempo gasto, investido, perdido, desfeito. Nunca me dei ao trabalho de contar as horas que eu passo em frente a esta janela. Trato-a como gente. Estarei louco?! Que medo tenho da loucura, da minha, da dos outros, sorriso traiçoeiro impresso no vidro limpo desta janela. Perguntas e mais perguntas vou eu arranjando para me entreter, que a loucura investe firme nos meus silêncios. Onde está o jornal que refreia a minha impaciência, que transformo por vontade própria numa aventura? Leio-o como se fosse a bula de um medicamento novo. E o tempo passa ágil por esta janela, vejo como some depois daquela casa, sem nenhuma hesitação, caminho que conhece desde sempre.

Salvação

Por muito tempo tive medo de perder-te. Por muito tempo guardei imagens nítidas dos teus olhos sofridos, da tua pele pálida, do teu cabelo negro perdido do brilho. Nesse tempo quis ser tanta coisa para poder salvar-te: anjo, fada, feiticeira. Por insistência de oração, arte de varinha mágica ou feitiço acertado, a verdade é que te salvaste, salvaram-te. Viveria mal sem o teu amor, sem o teu exemplo, sem a tua orientação. Mãe, minha mãe desta vida.

02 Janeiro 2008

Para começar bem o ano!

24 Dezembro 2007

Natal

(Natal segundo Lauro António. Um texto muito, muito bonito!)

Quando eu era pequeno, “fazer o presépio” era participar de um conto de fadas, aprender um passe de magia, ouvir uma lição de amor e humildade que nos poderia inspirar pela vida fora.Era sobretudo uma festa e uma festa com um mistério muito especial. Arrancava-se o musgo das pedras da paisagem para levar para casa e cobrir o chão, imaginando-se montanhas e vales, e rios de prata azulada. Construía-se a cabana com troncos e palhinhas, colocava-se com delicadeza o menino de barro na improvisada manjedoura, São José e Maria eram a projecção do amor de pai e mãe que ali se arrumavam para velarem por nós. E vinha ainda lá do fim dos tempos o calor da vaca e do burrinho, e os Reis Magos que chegavam conduzidos pela Estrela que anunciava a Boa Nova. E surgiam, como por encanto, figurinhas de populares, com ofertas simples, pastores com ovelhas, a samaritana com o cântaro à cabeça, ao lado do poço da água gelada daquela noite de Dezembro…
Era assim o presépio quando eu era pequeno. Uma excitação que nos arregalava os olhos de magia. Algo que não se compreendia bem, que estava para lá do nosso entendimento, mas que nos aquecia o coração, que se prolongava pelos dias, até chegar a tal noite onde, em redor da camilha, com uma braseira aos pés, se comia a consoada e se esperavam algumas prendas. Livros, sobretudo livros, era a minha esperança, sempre concretizada.Fui feliz, muito feliz, envolvido pelo calor do pai e da mãe, alguns anos depois também ao lado da irmã. Era uma família aquecida da noite fria. Havia problemas como em todo o lado, mas era feliz. Coisa bonita de se dizer, mas sobretudo de se sentir.
Nunca soube, nem sei, se haverá algo de divino neste entremez, anualmente repetido, mas do que não duvido é da sua poderosa força magnética. O Natal fazia-me sentir bem. Quando eu era pequeno. Era frio e era quente, era gelado e tórrido, uma mistura magnifica que nunca esquecei.
Fui mantendo a tradição abnegadamente. Sem esforço. Com prazer. Ano após ano. O presépio nunca deixou de estar presente, ali no canto da sala, e sempre amorosamente retocado. A árvore de Natal, o Pai Natal, as filhozes, os bilharacos (sempre com a receita do pai), a consoada, o sacrificado peru, e o bacalhau da tradição… As crianças fazem-se homens, os filhos fazem-se pais, os pais vão ficando pelo caminho, mas o Natal continua marcando a esperança em algo de imutável. Será assim?
O olhar dos homens vai mudando. A magia vai cedendo a insinuações cada vez mais constantes. E torpes. Arrancam-nos a inocência dia a dia. É preciso desconfiar de tudo.Olha-se agora o presépio e percebe-se que as figurinhas foram compradas numa loja de 300, já não feitas à mão, mas reproduzidas em moldes made in China. As decorações foram mesmo compradas numa outra loja chinesa e são o reflexo de trabalho escravo infantil. Olha-se a cabana em baclite e, lá atrás, dois políticos discutem se aquele é ou não terreno de Israel ou da Palestina. Como não conseguem chegar a um acordo, ameaçam, e cumprem a ameaça, com bombas que reinvidicam o território. E assassinam milhares.Os três Reis Magos entregam ouro, incenso e mirra, mas nenhum deles chegou desinteressadamente por montes e vales, conduzidos por uma estrela. Todos vieram em jactos particulares e saíram das suas tendas oficiais há coisa de minutos. Os camelos são o exotismo que vende. É tudo uma montagem, uma encenação para impressionar os espectadores das dezenas de cadeias de televisão que cobrem o acontecimento.Uma delas tentou o exclusivo, ofereceu milhares de dólares, euros ou rublos, mas não conseguiu. Aliás, esta cimeira destina-se a incrementar sobretudo os negócios. São homens de negócio que acodem ao chamamento. Disputam mercados e influências políticas e estratégicas.O único pastor que por ali anda, balouça na mão direita um leitor de CDs e ouve Quim Barreiros. Um dos Reis, ditos Magos, publicita uma afamada marca de champanhe que se consome muito nesta quadra. O outro, tenta vender com soberba o seu petróleo, e ao terceiro descobriram olhares maliciosos e lúbricos, que levaram alguns a chamar-lhe pedófilo. Disfarçado.
A estrela? Não há estrela nenhuma, mas apenas um cintilante e pouco discreto satélite norte-americano que vai fotografando o evento. A CIA desconfia de armas nucleares.Um grupo de senhoras, de uma qualquer organização dita moralista, parodia a um canto, sonoramente, o facto de Maria ter concebido sem pecado, e discorrem sobre situações várias, donde, em nenhuma delas, São José sai beneficiado.A vaca é louca, afirmam as autoridades sanitárias, e o burro é mesmo burro, se não, não se prestaria a tal preparo. Tão burro que dois oficiais das finanças se preparam para o penhorar como veículo de transporte prioritário.
Num letreiro avisa-se: “É proibido fumar.”
Nem o menino está a salvo das iras de um grupo de jovens ecologistas que grita que o milho é transgénico e quer incendiar as palhinhas. Maria socorre-o e ampara-o no seu colo.Esquecia-me do anjo. Que faz ali pespegado de asas abertas? “O que é um anjo?”, pergunta a criança à mãe que atende o telemóvel? E esta responde: “Alguém que nos guia na vida.” “Assim uma espécie de GPS?”, conclui a miúda.Afasto de mim esta imagem e persisto no meu Natal de criança. Será ainda possível? Quero a inocência do musgo arrancado das rochas da montanha com uma faca da cozinha levada de casa. Quero o frio e o calor que sabem bem. Quero a minha infância de volta, quero essa idade aberta à esperança. Quero-a para mim e para as outras crianças. Quero que elas não percam a magia que me conduziu até aqui. Quero lá saber que as figurinhas tenham sido compradas numa loja de 300 e já não sejam de barro cozido à mão. O que eu queria sobretudo era acabar com o trabalho infantil escravo. Que existia há 2000 anos e permanece, apesar das prescrições da ASAE. O que eu desejava era que as crianças nascessem livres e iguais em direitos. E deveres. E fossem homens, e fossem velhos (velhos, sim!, não seniores ou da terceira idade) e fossem dignos. Para consigo e para com os outros. E houvesse Natal, todos os anos. E o espírito do Natal se estendesse por todos os dias dos anos. E que o Natal, divino ou não, fosse sobretudo humano.


Lauro António / Dezembro de 2007

16 Dezembro 2007

Gola das curtas mensagens

Fico a ver-te dormir. Desenho, sem cor, um caminho da tua boca às sobrancelhas. E no fim um beijo, porque não consigo resistir.
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Rima de sílabas, rima de sons, rima que escorrega em linhas de poesia simples, versos claros, lúcidos, decididos. História de amor que se explica com música, palavras de música, ritmo livre da vida, tempo que é nosso, meu amor. Beijos que serão para sempre, um “para sempre” definido por nós. Poesia que nasce verde e morre sábia. O meu amor é assim, pode ser assim.
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Não me canso dos reflexos desta janela, nem das imagens que ela imprime a cada segundo. Um carro, dois carros, centenas de carros que vão passando pela estrada. Uma luz, duas luzes, mil luzes de tantas casas, ruas, praças e avenidas. Aqueço o vidro com a minha respiração, escrevo o meu nome na película de vapor. Sou eu, sou eu, o reflexo mais constante desta janela.
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Paulo de Carvalho cantava ainda há pouco, numa gala da TVI (mais uma entre mil), o "E depois do adeus", como se não tivesse passado tempo nenhum pela sua voz. Senha de revolução, cravo cravado em muitos corações. E que fazia eu nesse dia de Abril de 1974? Entoava um choro no meu berço, sem imaginar o poder de uma canção.

Registo de fim-de-semana

O registo desta semana é para a minha avó Micas, que gostava muito de ouvir o Alfredo Marceneiro.
O Natal era mais Natal quando ela ainda estava connosco. Tenho saudades de rapar a panela do arroz doce e dos seus desenhos de canela.

Lágrimas em palco

São os olhos, filha, que me parecem sempre tristes, mesmo quando sorris. Vem de outras vidas essa tristeza, não houve tempo para esquecê-la. Se ainda fossem azuis, verdes, cor de mel ou amêndoa, mas são de um castanho muito escuro, os olhos que herdaste de mim. A tristeza mais triste é a dos olhos castanhos, brilham as lágrimas num palco apagado.

11 Dezembro 2007

Quer eu queira, quer não

Acho que vale mesmo a pena ouvir este Xaile encantado. Vozes de Lília, Marie e Bia. Temos "Corrs" à portuguesa?

18 Novembro 2007

Um pequeno drama

Hoje, dei por mim a arrecadar o Verão em caixas de plástico transparente. Camadas quase perfeitas de t-shirts de muitas cores, saias com flores, com folhos, cheiro de praia que não sai com o detergente. Azul sobre amarelo, encarnado sobre verde, depois a toalha de praia. Guardei este Verão com data de Outono, com frio de Inverno, seguramente. Mesmo que pareça um exagero, um drama de curta duração, digo-vos que não me é fácil entregar o Verão a este encarceramento. Numa visão infantil, imagino o Verão a definhar de tristeza, a falar sozinho com as paredes cinzentas de uma torre alta, muito alta, de um castelo qualquer. Irreal, incompreensível para muitos, esta despedida lenta do Verão. Fecho a última caixa. Fica comigo o que não pode ser arrumado como objecto. O calor que chega do mar, rebentação que transponho, loucuras, começos inesperados, agitação. Agora, é tempo do castanho das castanhas, do laranja, do amarelo torrado, das folhas que são do chão mais do que das árvores, de ficar com o nariz frio, conservar o coração quente, muito quente. É Outono, não posso adiá-lo mais.

03 Novembro 2007

Registo de fim-de-semana

Kings of Convenience e as Ilhas Caimão ...